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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A VELHICE EM QUARENTA FRASES



– Apraz aos velhos dar bons conselhos, como consolo por já não estarem em condições de dar maus exemplos. (François de La Rochefoucaud)

– Velhice: aquele período da vida em que agravamos os vícios que ainda nos agradam amaldiçoando aqueles que não temos mais a iniciativa de cometer. (Ambrose Bierce)

– Velhice não é tão ruim assim, quando você considera as alternativas. (Maurice Chevalier)

– (...) vejo quatro razões para acharem a velhice detestável: 1) Ela nos afasta da vida ativa. 2) Ela enfraquece o nosso corpo. 3) Ela nos priva dos melhores prazeres. 4) Ela nos aproxima da morte. (Marco Túlio Cícero)

– Ninguém ama tanto a vida com o homem que está envelhecendo. (Sófocles)

– Para o ignorante, a velhice é o inverno; para o instruído é a estação da colheita. (provérbio judaico)

– Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons. (Carlos Drummond de Andrade)

 – O pior da velhice é você ainda conservar uma grande capacidade de conquista, levar mulheres para a cama com a maior desenvoltura, e não se lembrar para quê. (Millôr Fernandes)

– Na mocidade buscamos as companhias, na velhice evitamo-las: nessa idade conhecemos melhor os homens e as coisas. (Marquês de Maricá)

– A velhice é um simples preconceito aritmético, e todos nós seriámos mais jovens se não tivéssemos o péssimo hábito de contar os anos que vivemos. (Júlio Dantas)

– A cultura é o melhor conforto para a velhice. (Aristóteles)

– Tu não deverias ter ficado velho antes de ter ficado sábio. (William Shakespeare)

– Na juventude deve-se acumular o saber. Na velhice, fazer uso dele. (Jean-Jacques Rousseau)

– A sabedoria nos chega quando já não serve para nada. (Gabriel Garcia Márques)

– A velhice apenas priva os homens inteligentes das qualidades inúteis à sua sabedoria. (Joseph Joubert)

– Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria. (Henry Mencken)

– Deve-se temer a velhice, porque ela nunca vem só. Bengalas são prova de idade e não de prudência. (Platão)

– É duro chegar à velhice. É quando percebemos que nosso tempo passou e a esperança de antes se transforma em desespero. (Alexandre Kalache)

– Quem louva a velhice não a viu de perto. (Norberto Bobbio)

– A vida, mormente nos velhos, é um ofício cansativo. (Machado de Assis)

– Acontece com a velhice o mesmo que com a morte. Alguns enfrentam-nas com indiferença, não porque tenham mais coragem do que os outros, mas porque têm menos imaginação. (Marcel Proust)

– Outrora, a velhice era uma dignidade; hoje, ela é um peso. (François Chateaubriand)

– A velhice é o pior dos males, pois priva o homem de todos os prazeres, deixando-lhe o apetite. (Giacomo Leopardi)

– Na mocidade, aprendemos. Na velhice, compreendemos. (Marie von Ebner-Eschenbach)

– O inferno das mulheres é a velhice. (François de La Rochefoucauld)

– A velhice é um naufrágio. (Charles de Gaulle)

– Toda saudade é uma espécie de velhice. (João Guimarães Rosa)

– A razão prevalece na velhice, porque as paixões também envelhecem. (Marquês de Maricá)

– A velhice deve ser deixada para amanhã. O diabo é que ela chega sempre ontem. (Millôr Fernandes)

 – O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão. (Gabriel Garcia Márques)

– Os meses correram com a velocidade que só se sente de certa idade em diante, quando a velhice nos acena de mais perto e as cãs começam a povoar a cabeça e a barba. (Machado de Assis)

– Adoro os homens com mais de sessenta anos. Sempre nos prometem dedicação pelo resto da vida. (Oscar Wilde)

– É uma infelicidade que existam tão poucos intervalos entre o tempo em que somos demasiado novos e o tempo em que somos demasiado velhos. (Montesquieu)

– Nas pálpebras dos velhos o cuidado sempre se mostra vigilante; e onde esse soldado está de guarda, o sono não penetra. (William Shakespeare)

– Um homem precisa ter envelhecido e vivido bastante para perceber quão curta é a vida. (Arthur Schopenhauer)

– As ideias novas desagradam às pessoas de idade. Elas gostam de se convencer de que, depois de terem deixado de ser novas, o mundo, em vez de enriquecer, se perdeu. (Madame de Stael)

 – Pior que cárcere é a velhice, porque não permite o consolo de preparar a fuga. (Adolfo Bioy Casares)

– Viver muito tempo significa sobreviver a muitas pessoas amadas, odiadas, indiferentes. (Johann Wolfgang von Goethe)

– Todo mundo quer viver muito, mas ninguém quer ficar velho. (Jonathan Swift)

– A velhice tem atitudes infantis, sem o encanto da infância. (Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 3 de fevereiro de 2018

O FUTEBOL EM CINQUENTA E CINCO FRASES



Gary Winston Lineker
– Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola. (Nelson Rodrigues, jornalista)

– Futebol é a continuação da guerra por outros meios. É uma mímica da guerra. (George Orwell)

– Futebol é o reino da liberdade exercido ao ar livre. (Antonio Gramsci, filósofo italiano)

– O futebol é a única religião que não têm ateus. (Eduardo Galeano, escritor uruguaio)

– Nas arquibancadas do Maracanã, o mais fino gentleman se torna o mais sórdido canalha. (Zózimo Barrozo do Amaral, jornalista)

– A bola é redonda, o jogo dura noventa minutos e todo o resto é apenas teoria. (Josep “Sepp” Herberger, jogador e técnico alemão)

– O futebol é um esporte muito simples: 22 jogadores correm atrás de uma bola durante noventa minutos e, no final, os alemães sempre vencem. (Gary Lineker, jogador e técnico inglês)

Alfredo Stéfano di Stéfano (1926-2014)
 – Jogamos como nunca e perdemos como sempre. (Alfredo di Stefano, jogador e técnico argentino-espanhol)

– Futebol não tem mistério. Você é que faz o mistério do futebol. (Mané Garrincha, jogador)

– O futebol é simples. Difícil é jogar bonito. (Neném Prancha, técnico)

– O conhecimento da alma humana passa por campo de futebol. (Albert Camus, escritor)

– Futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso. (William Shankly, jogador e técnico escocês)

– O futebol é a coisa mais importante das coisas menos importantes. (Arrigo Sacchi, técnico italiano)

– Não sei se tenho maior prazer numa relação sexual ou se quando ganhamos do Flamengo. (Eurico Miranda, dirigente)

– Vou correr como um negro para amanhã viver como um branco. (Samuel Eto’o)

– Todo brasileiro é um técnico de futebol frustrado (Luís Fernando Veríssimo)
 
Armando Nogueira (1927-2010)
– E no oitavo dia Deus fez o Milagre Brasileiro: um país todo de jogadores e técnicos de futebol. (Millôr Fernandes)

– O brasileiro dribla a fome, a miséria, a falta de escola. Depois disso, fica fácil driblar um zagueiro. (João Moreira Salles, cineasta)

– Os cartolas pecam por ação, por omissão, ou por comissão. (Armando Nogueira, jornalista)

– Se o futebol estivesse baseado na razão, não haveria razão para existir o futebol. (Vicente Verdun, escritor mexicano)

– Quem diz que o futebol não tem lógica, ou não entende de futebol ou não sabe o que é lógica. (Sergio Porto, vulgo Stanislaw Ponte Preta, jornalista)

– Esse jogo não é matemática. É futebol, e no futebol dois mais dois raramente dá quatro. Às vezes é três. Com frequência é cinco. (Leo Beenhakker, técnico de Trinidad Tobago)

– Foi o futebol que permitiu uma visão mais positiva e generosa de nós mesmos num plano realmente nacional e popular, como nenhum livro, filme, peça teatral, lei ou religião jamais realizou. (Roberto da Matta)

– O que o futebol tem de contraindicação: senhores do apito, que atendem pelo nome de árbitro. Durante a partida, atendem por outros nomes também. (Washington Olivetto, publicitário)

– Deus estava do nosso lado, mas o árbitro era francês. (Hristo Stoichkov, jogador e técnico búlgaro)

Hristo Stoichkov
 – O futebol não é um jogo perfeito. Eu não entendo porque você quer que o árbitro o seja. (Pierluigi Collina, árbitro)

– O problema com os árbitros é que eles conhecem as regras e desconhecem o jogo. (William Shankly, jogador e técnico escocês)

– Em nenhum lugar aprendi tanto de mim e de meus semelhantes como em um campo de futebol. (Jorge Valdano, jogador argentino)

Quem pede tem preferência; quem se desloca, recebe. (Neném Prancha, técnico)

– Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos. (Nelson Rodrigues, jornalista)  

– Bem-aventurados os que não escalam, pois não terão suas mães agravadas, seu sexo contestado e sua integridade física ameaçada, ao saírem do estádio. (Carlos Drummond de Andrade)

– Não vou amargar minha vida por perder um jogo ou um campeonato. Drama real é ter um filho doente... ou não ter dinheiro no final do mês. (Carlos Bianchi, jogador e técnico argentino)

– Um craque tem que ter as virtudes de um poeta: criatividade, fantasia e coração. (Vladimir Dimitrijevic, escritor iugoslavo)

Antonio Franco de Oliveira, o Neném Prancha (1906-1976)
 – Para Mané Garrincha, o espaço de um pequeno guardanapo era um enorme latifúndio. (Armando Nogueira, jornalista)

– O Didi joga bola como quem chupa laranja, com muito carinho.  (Neném Prancha, técnico)

– O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé. (Carlos Drummond de Andrade)

– A bola tem vida própria. Ela gosta de ser bem tratada. (Zizinho, jogador)

– Se a bola soubesse o encanto que tem, não passaria a vida rolando de pé em pé. (Armando Nogueira, jornalista)

– A bola não enxerga. É o artilheiro que sabe antes dos outros aonde a bola vai chegar. (Tostão, jogador)

William "Bill" Shankly
– Driblar é dar aos pés astúcia de mãos. (João Cabral de Melo Neto, poeta)

 – Dentro da área, o drible é uma temeridade. No meio de campo é perda de tempo. Na área do adversário é meio gol. (Fleitas Solich, técnico)

– Pênalti é uma coisa tão importante, que quem devia bater é o presidente do clube. (Neném Prancha, técnico)

– Um jogo de futebol sem gols é como um domingo sem sol. (Alfredo di Stefano, jogador)

– Não existe gol feio, feio é não fazer gol. (Dadá Maravilha, jogador)

Dario José dos Santos, o Dadá Maravilha
– É melhor vencer dez vezes por 1 x 0 do que ganhar uma única vez por 10 x 0. (Vahid “Vaha” Halilhodžic, jogador e técnico bósnio)

– O meu clube estava à beira do precipício, mas tomou a decisão correta: deu um passo à frente. (João Pinto, jogador português)

– A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana. (Nelson Rodrigues, jornalista)

– No futebol, a cabeça é o terceiro pé. (Sergio Porto, vulgo Stanislaw Ponte Preta, jornalista)

 – No futebol, matar a bola é um ato de amor. (Armando Nogueira, jornalista)

– Não foi nada de especial, chutei com o pé que estava mais à mão. (João Pinto, jogador português)

 – Cruyff era melhor jogador, mas eu era campeão do mundo. (Franz Beckenbauer, jogador e técnico alemão)

– A velocidade do cérebro é mais importante que a das pernas. (Xavi Hernandez, jogador espanhol)

Marcel "Marco" van Basten
 – No futebol eu penso o mesmo que o Ivan Lendl sobre o tênis: se você quiser um amigo, compre um cão. (Marco van Basten, jogador e técnico holandês)

Jogador de futebol, tem que ir na bola com a mesma disposição com que vai num prato de comida. Com fome, para estraçalhar. (Neném Prancha, técnico)

– É impossível escrever um roteiro mais emocionante do que um jogo de futebol. (Spike Lee, cineasta)

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A ILHA DO TESOURO




Os reencontros são situações que possibilitam (com algumas dificuldades) voltar o olhar para o passado cada vez mais distante e (se é que isso é possível) recuperar lembranças que estavam destinadas ao esquecimento. O primeiro contato com A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, aconteceu quando eu tinha uns oito ou nove anos. Faz tempo! Possivelmente reli o livro alguns anos mais tarde, na coleção terra-mar-e-ar, mas não tenho certeza.

Nos últimos anos procurei por uma edição com o texto integral. Estranhamente, não encontrei. A Ilha do Tesouro se tornou um livro raro. Nas livrarias virtuais há algumas edições adaptadas. Nos sebos físicos, nenhuma notícia. Provavelmente a modernidade não combina com esse tipo de literatura romântica. Quem é que quer saber das peripécias de um garoto que vai em busca de um tesouro quando pode se distrair com videogames ou “blockbusters” cinematográficos?
Robert Louis Stevenson (1850-1894)
      
Inesperadamente, a cerca de um mês, encontrei um exemplar. Edição portuguesa de 2011, capa dura, ilustrações de Louis Rhead e tradução de Fernanda Palmeirim. Li (ou melhor, reli) em dois dias. Foi bom. Muito bom. Inclusive naquilo que causa estranheza. A indiscutível prova de que estamos separados de Portugal pela língua aparece no texto através de palavras como lugre, pequeno-almoço, charneca, garrido, moitão, linguareiro, fixe, relvado ou de expressões como passar alguém pela quilha ou fazer aguada. Em todos esses casos (e em vários outros) recorri ao(s) dicionário(s). Conhecer uma meia dúzia de vocábulos nunca fez mal a ninguém.

Em relação ao texto, muitas surpresas. No meu imaginário, a história era outra. E muito diferente. Com mais peripécias, com mais heroísmo, com menos descrições. A imaginação introduz no enredo cenas que não estão lá. Long John Silver (e o seu papagaio, Capitão Flint) parecia ser mais aterrorizante, mais cruel. Não o é. Trata-se de um sujeito ambicioso, mas que também consegue calcular suas chances quando a balança do destino começa a pender para o outro lado. E a sua fuga nas últimas páginas revela – por vias travessas – o quanto do mal costuma ficar impune (principalmente nos casos em que há algum tipo de “arrependimento” dos pecados).

O texto está dividido em seis partes (trinta e quatro capítulos). O narrador geral da história, Jim Hawkins, relembra, a pedido de Trelawney e de Livesey, alguns dos episódios da grande aventura que eles viveram juntos. Do ponto de vista estrutural, existe uma ruptura nos capítulos XVI, XVII e XVIII, quando o médico Livesey assume o papel de narrador, relatando fatos que estão fora do alcance de Hawkins. No mais, trata-se de uma narrativa com começo, meio e fim – nessa ordem – e um narrador (quase) onisciente e (quase) onipresente.       

Os acontecimentos iniciam de forma despretensiosa. O pai de Jim Hawkins é proprietário de uma estalagem, Admiral Benbow, na costa sudoeste da Inglaterra, provavelmente perto de Bristol. Um dos hóspedes, Bill Bones, passa os dias olhando para o mar através de um velho telescópio de latão. Depois que o dia escurece, ele volta à estalagem e bebe todo o rum que aguenta. Entre um gole e outro, atormenta os hóspedes e os visitantes. O único que não se sente amedrontado por esse encrenqueiro é o médico – que o adverte sobre os malefícios do alcoolismo. Em determinado momento, aparecem na estalagem alguns “amigos” de Bill. Essas visitas somadas com a saúde debilitada do marinheiro resultam em um ataque apoplético.

O que se segue é parte divertida, com direito a todos os clichês da literatura de aventuras: mapa do tesouro, viagem a bordo do Hispaniola, a tripulação se transformando em piratas, perigos inimagináveis, tiroteios, doenças tropicais, uma confusão atrás da outra, tudo em um andamento vertiginoso – para não permitir que o ritmo se esfarele.             

Parte do prazer do texto está em perceber as mudanças comportamentais de Hawkins (hawk, falcão em inglês). O adolescente que participou da caça ao tesouro amadureceu. Tornou-se outro. E é esse outro que aceita colocar no papel os acontecimentos que vivenciou. Então, quando descreve algumas de suas ações, o faz com senso crítico, condenando a impetuosidade, a falta de razão prática, o correr perigo desnecessariamente. Ao mesmo tempo, exalta a coragem e o senso de honra. Essa ambiguidade permite uma imagem humana para um personagem de papel. Nesse sentido, a humanidade, há outra questão axial: a ausência de limites. Não se trata de um elemento psicológico relacionado com o fato dele ser órfão de pai e negar a autoridade. O problema é outro. A vontade de ser herói – apesar de não saber exatamente como vai conquistar esse galardão – o torna egoísta. As decisões mais importantes da narrativa são tomadas isoladamente, sem consulta prévia aos mais demais participantes da jornada, sem a mínima compreensão do que está afetando aos outros.  

Evidentemente, tudo termina bem (apesar dos vários mortos). O tesouro é encontrado, os bandidos são derrotados e as páginas finais estão encharcadas de um moralismo cínico – que perdoa o roubo perpetuado por Long John Silver e condena o desapego econômico de Ben Gunn. Deixando de lado esses senãos, o que importa é que, como todo clássico, o livro escrito por Robert Louis Stevenson está repleto de tesouros – e é através da releitura que os encontramos.


TRECHO ESCOLHIDO


– Rapazes – declarou, – tivemos um dia esgotador, e está tudo cansado e mal disposto. Uma volta por terra não faz mal a ninguém, os escaleres ainda estão na água, podem pegar nos grandes e quem lhe apetecer pode passar a tarde em terra. Eu darei um tiro de chamada meia hora antes do pôr-do-sol. 

 

Acho que aqueles insensatos pensaram que davam logo com as canelas no tesouro mal desembarcassem, porque num instante lhes passaram os amuos, e soltaram um coro de vivas que ecoou ao longe nos montes e fez de novo levantar a passarada no ancoradouro.

 

O capitão era suficientemente esperto para ficar ali a atrapalhá-los. Num momento, desapareceu de vista, deixando o Silver tratar do grupo, e acho que ainda bem que o fez. SE tivesse ficado no tombadilho, não poderia fingir que não entendia a situação. Era claro como água. Quem comandava era o Silver, e mesmo assim parecia difícil que não se voltassem também contra ele. Os homens honestos – e em breve veria que ainda os havia – deviam ser muito estúpidos. Ou, melhor dizendo, suponho que a verdade era esta: que estavam todos neutralizados pelo exemplo dos seus chefes – mas uns em maior grau que outros; e uns poucos, sendo já de si boas pessoas, não podiam ser recrutados nem arrastados mais longe. Uma coisa é dar-se ao ócio e à cobardia, e outra muito diferente é assaltar um navio e matar uma série de pessoas inocentes. 

 

Por fim, o grupo ficou formado. Ficavam seis homens a bordo, e os outros treze, incluindo o Silver, dirigiam-se para os escaleres. Foi nessa altura que me veio à cabeça a primeira das ideias loucas que tanto contribuíram para nos salvar as vidas. Se o Silver deixava seis homens, era evidente que o nosso grupo não podia tomar e defender o navio; e como só ficavam seis, também se tornava claro que o grupo do camarote não ia precisar da minha ajuda. E então lembrei-me de também ir à terra. Num ápice, saltei a amurada e enrolei-me no paneiro da proa do barco mais próximo, quase no mesmo instante em que ele largou para a ilha. Ninguém deu por mim a não ser o remador da frente, que perguntou:

 

– És tu, Jim? Vê lá se te abaixas. 

 

Mas o Silver, no outro escaler, virou-se rapidamente para perguntar seu ia ali, e a partir dessa altura comecei a arrepender-me do que tinha feito.

 

Remaram numa corrida para a praia, mas o barco onde eu ia, tendo algum avanço, e sendo ao mesmo tempo o mais leve e o mais bem manejado, lançou-se muito à frente do adversário, e assim que meteu a proa nas árvores da margem, saltei para um ramo e no mesmo balanço atirei-me para os arbustos mais próximos, ao passo que o Silver e os outros ainda vinham uns cem metros atrás. 

 

– Jim, Jim! – ouvi-o chamar. Mas, como podem imaginar, não lhe liguei nenhuma. Saltando, baixando-me e rompendo caminho, corri e corri sempre a direito, até não poder mais.