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quarta-feira, 27 de julho de 2011

A ÚLTIMA ESTAÇÃO (UM FILME SOBRE OS ÚLTIMOS DIAS DE TOLSTOI)

O filme A última estação (The last station. Dir. Michael Hoffman, 2009), baseado em romance de Jay Parini (The last station: a novel of Tolstoy’s last year), é uma tentativa de retratar os últimos dias de vida de Liev Nikolayevich Tolstoi. Infelizmente, é apenas uma tentativa. Dessas que, ao mesmo tempo em que ensaiam colocar em ordem a confusão, deixam o chão enlameado, o mundo de ponta−cabeça.

Exemplo de um cinema cada vez mais freqüente, os dias que antecedem a morte de Tolstoi são narrados com impressionante superficialidade. Condensação do tempo e do espaço, a esconder o mundo que os cerca. As questões mais importantes do início do século 20 foram deixadas de lado. Nem mesmo as transformações políticas na Russia (crescimento da insatisfação popular contra o Czar, revolta de 1905) são citadas. O que transparece é uma grandiosidade falsificada, produto da falta de senso crítico com as personalidades históricas – esquecendo que, atrás do endeusamento, existem seres humanos. Em outras palavras, A última estação é um filme repleto de ausências. Faltam muitas coisas – inclusive os russos. O elenco estelar não conta com nenhum nativo da Europa Oriental. E isso é, no mínimo, ridículo. Também falta uma maior consistência na elaboração do personagem que deveria ser o protagonista. Christopher Plummer (com aquela barba residual de Alvo Dumbledore) não convence como Tolstoi – principalmente nas cenas em que a apatia (bastante artificial) devora o senso crítico do autor de Guerra e paz. O pacto ficcional caminha em direção oposta à vontade da produção: colocar em cena um excelente ator não transforma uma bobagem em obra−prima.

Além disso, o enredo perde o sentido quando se divide em dois pólos secundários. O envolvimento afetivo entre o secretário de Tolstoi, Valentin Fedorovitch Bulgakov (James McAvoy), e Maria Filipova (Anne−Marie Duff) acrescenta no andamento narrativo o romantismo típico (e alienado) das histórias de amor. Parece até recurso de roteirista sem imaginação, que quer preencher o espaço com algum elemento mais suave, menos tenso.

Na parte mais movimentada do filme, a oposição (afetiva, ideológica, econômica) entre Sofya Andreyeva (Helen Mirren) e Vladimir Grigorievitch Chertkov (Paul Giamatti) desvia o olhar do espectador para as intrigas do poder. São cenas teatrais, tempestuosas, divertidas, patéticas. Sofya Andreyeva, uma mulher passional, muitas vezes rompe as barreiras do bom senso. Chertkov não passa de um manipulador, um desses cretinos que somente conseguem se realizar com o sucesso alheio.

Com todos esses desdobramentos da ação narrativa, Tolstoi fica em segundo plano. Parece uma marionete sem personalidade, jogada para lá e para cá − de acordo com interesses circunstanciais. A sua morte, no sul da Rússia, se transforma em mero complemento. Enquanto Lyev Nikolaievitch agoniza, o filme emoldura outros episódios da luta entre Sofya Andreyeva e Vladimir Grigorievitch. É recurso risível, típico de cinema de terceira categoria. Para completar a comédia, o happy end surge logo depois do anúncio da morte de Tolstoi: Valentin Fedorovitch reencontra Maria Filipova e sela com um beijo o porvir.

Resumo da ópera: A última estação, assim como o romance de Jay Parini, é ruim, muito ruim.

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