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quinta-feira, 15 de março de 2012

ESTÔMAGO: TRÊS EXERCÍCIOS PEDAGÓGICOS

O tema é aparentemente "inofensivo": gastronomia. O ator, João Miguel, que interpreta o protagonista está do outro lado da margem do charme que caracteriza dez entre dez atores de cinema. Não é homem bonito. Não é homem igual a esses que decoram capa de revista. Seu personagem é brasileiro, feio, pobre, com visível e audível déficit educacional. Raimundo Nonato (um nome banal no nordeste brasileiro) é apenas mais um. Perdido no meio da multidão, entre os excluídos.

Mesmo assim, com todos esses "defeitos", poucos filmes nacionais conseguem alcançar a fluência narrativa de Estômago (Dir. Marcos Jorge, 2007).

Violento, lírico, exagerado – não importa o adjetivo escolhido pelo espectador. Há outros, muitos outros, muito mais significativos: visceral, necessário, político. Ah, antes que restem dúvidas e dívidas: Estômago é um filme político.

Primeiro Exercício Pedagógico: a construção do saber.
Guiado pela necessidade de uma vida melhor, Raimundo Nonato vai para São Paulo com "uma mão na frente e outra atrás". Nada sabe fazer, exceto cozinhar. Quer dizer, cozinhar ele realmente não sabe. No máximo, domina conhecimento para salvar o arroz−com−feijão de cada dia.

Sem um centavo no bolso e a barriga vazia, atravessa a madrugada. E é salvo da fome. Consegue um emprego, em regime de semi−escravidão. Fritar pastéis e coxinhas. Rapidamente, domina a arte de transformar a matéria bruta (farinha, ovos, fermento) em sabor. O patrão, ao longe, não entende tamanho progresso. Como é que pode? Certamente algum anjo o protege. Na dúvida, Raimundo Nonato vai espalhando alecrim pelos pratos que o  boteco serve para a freguesia mais exigente, que quer fugir das frituras.

Giovanni é proprietário de restaurante ("Boccaccio") e adota Raimundo Nonato. Ensina para o rapaz o básico. Como se fosse um ourives vai lapidando o cascalho até que a joia aflore. Não se decepciona. Apesar da ignorância abissal do ajudante – que, lentamente, vai sendo corrigida com paciência, com informação.

Segundo Exercício Pedagógico: a construção do amor.
Íria é prostituta. Dessas que ficam rodando a bolsinha pelas ruas. Dessas que fazem de tudo, exceto beijar na boca. Adora comer. Raimundo sabe cozinhar. A união da fome com a vontade de comer. Cada um servindo ao outro o alimento necessário para seguir em frente. O quartinho, lá nos fundos do boteco, se transforma em suíte de motel cinco estrelas. Não podia resultar em final feliz a união do fudido com a fudida. Raimundo se apaixona. Quer casar. Véu e grinalda. Ou melhor, com tudo o que considera ser seu direito. Não é assim que a vida funciona. Descobre essa verdade atemporal quando percebe que Íria também frequenta a cama de Giovanni. Tomado por ciúme, depois de beber o vinho mais caro do restaurante, mata os dois. Como se não bastasse, frita um pedaço da bunda da traidora. Antropofagicamente vinga a honra ofendida. Resultado: prisão.

Terceiro Exercício Pedagógico: a construção do poder.
Cadeia tem regras muito específicas. A vida de um homem perde valor. Necessário reinventar sabedorias. Comida ruim, servida em panelão, não há quem coma. A esperteza está em saber reconhecer o momento favorável. Na primeira oportunidade, Raimundo propõe serviço. O bandido que domina a cela gosta da nova comida. O mundo adquire outro sentido, embora aconteçam algumas bobagens pelo meio do caminho.

A metáfora do poder está contida na distribuição das camas do beliche da cela. Quem chega por último não tem nada. Com o passar do tempo, de acordo com a utilidade, é possível subir alguns degraus. É a trajetória que Raimundo vai traçando. Começou no chão, foi para o beliche de baixo, para o do meio. Dentro da cela, alimentando os companheiros, adquire poder (e ambição). A comida é uma arma, descobre Raimundo no momento em que, deitado no beliche de cima, toma o lugar do chefe da cela.


O homem ingênuo não existe mais. Raimundo Nonato é um homem igual a todos os outros.

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