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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O HUMOR (MUITO PARTICULAR) DE OTTO LARA RESENDE

Positivamente, não posso ser apresentado a Satanás: como André Gide, sofro a tentação de entender as razões do adversário.

Abraço e punhalada a gente só dá em quem está perto.

Patrão de esquerda só é bom no dia do pagamento.

Leio muito à noite. Só não sou inteiramente uma besta porque sofro de insônia.

Sou autor de muitos originais e de nenhuma originalidade.

Sou jornalista, especialista em idéias gerais. Sei alguns minutos de muitos assuntos. E não sei nada.

Texto de jornal é estação de trem depois que o trem passou. Deixou de ter interesse.

Escrevemos, escrevemos, escrevemos. Clamamos no deserto. O clube do poder tem as portas lacradas e calafetadas.

Eu escrevo todos os dias, por compulsão. Mas agora, aos 70 anos, uma das perguntas que mais me intrigam é o que eu vou ser quando crescer.

A morte é noturna. À noite, todos os doentes agonizam.

A morte é, de tudo na vida, a única coisa absolutamente insubornável.

Sou leitor atento da página fúnebre. Tem mais gente conhecida do que a coluna social.

Não sou alegre. Sou triste e sofro muito. Dentro de mim há um porão cheio de ratos, baratas, aranhas, morcegos, escuro, melancolia, solidão.

O único erro humano que merece a pena de morte é o de revisão.

Deus é humorista.

Sou um sobrevivente sob os escombros de valores mortos.

Devemos a Graham Bell o fato de estarmos em qualquer lugar do mundo e alguém poder nos chatear pelo telefone.

Intelectual na política é quase sempre errado. É sempre errado. A práxis não deixa espaço para pensar; pensar é muito sutil, enrascado, complexo, multiplica as alternativas.

Política é a arte de enfiar a mão na merda. Os delicados pedem desculpas, têm dor de cabeça e se retiram.

A ação política é cruel, baseia-se numa competição animal, é preciso derrotar, esmagar, matar, aniquilar o inimigo.

Quem me garante que Jesus Cristo não estaria hoje na estatística da mortalidade infantil?

O homem é um animal gratuito.

Para mim, domingo sem missa não é domingo.

A tocaia é a grande contribuição de Minas à cultura universal.

Há um lado pobre-diabo em mim. Os pobre-diabos logo farejam e se irmanizam, me perseguem, não me largam.

Não quero tripudiar sobre ninguém. Junto a isto um insanável sentimento de simpatia, que me domina, por todos os decaídos.

Devo ter sido o único mineiro que deixou de ser diretor de banco.

Há em mim um velho que não sou eu.

Sou exatamente o menino que aos nove anos foi declamar um verso de Antero de Quental e se perdeu.

Minas está onde sempre esteve.

Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Helio Pellegrino e Otto Lara Resende

P.S: Uma das frases mais famosas de Otto Lara Resende, Mineiro só é solidário no câncer, não é do Otto, mas foi a ele atribuída por Nelson Rodrigues, na peça Bonitinha, mas Ordinária ou Otto Lara Resende. 

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