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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

TODO AQUELE JAZZ

Alcoolismo, drogas, loucura – há quem diga que esse triunvirato de “virtudes”, acompanhado de inúmeros problemas com a polícia, define o período áureo da história do jazz. A tese provavelmente não está longe da verdade, embora, claro, isso jamais seja toda a “verdade”. De qualquer forma, cabe ter em mente que Se o jazz apresenta um vínculo vital com “a luta universal do homem moderno”, como poderiam os homens que o criam não portar as cicatrizes dessa luta?

Narrativa refinada, Todo Aquele Jazz, do inglês Geoff Dyer, atravessa as áreas nebulosas que separam a historiografia e o ensaio literário, recria histórias de vários protagonistas do mundo jazzístico e, de uma maneira especial, trava o combate heterodoxo entre acordes e serenidade. Como se não bastasse, o livro rompe com alguns mitos musicais. Talvez o mais importante seja a regra não escrita que separa a obra artística da história pessoal. Navegando em águas perigosas, Geoff Dyer discorda desse dogma e procura – mesmo que seja ficcionalmente – iluminar as áreas escuras da essência jazzística: muito daquilo que constitui a grandeza do jazz se situa além do limite da técnica; sobretudo quando, como todos os músicos concordam, eles têm de pôr todo o seu ser no que estão tocando, quando a música depende da vivência deles, do que eles têm a oferecer como pessoas.  

Charles Mingus
Jazz é o paraíso dos anjos decaídos. Milhares de doidões, incontáveis fãs da esquadrilha da fumaça, escravos da heroína, centenas de picadas entre os dedos do pé – quando as veias do braço não são mais suficientes para acalmar a loucura que vai tomando conta do corpo –, carência que somente pode ser suspensa com o abrir das portas para o Paraíso Artificial, momento de alívio para esse sofrimento sem fim.

Muitas histórias, imagens idiossincráticas, tempestades incontroláveis, paixão inesgotável: Lester Young não conseguia resistir às drogas, a qualquer droga; a generosidade de Thelonious Monk que, para não denunciar Bud Powell, cumpriu um ano de prisão; Ben Webster, uma garrafa após a outra, mergulhava nas profundezas do inferno; Art Pepper ressentido por ser branco; a fúria titânica de Charles Mingus e os estragos absurdos que ele causou; a fragilidade psíquica de Bud Powell, semelhante a um prato prestes a cair da mesa e se fragmentar em mil pedaços; o irresistível charme de Chet Baker com as mulheres.

Chet Baker e Art Pepper
O jazz pode ser ouvido em bar, ambiente esfumaçado, o som das vozes abafando a música que está sendo tocada no palco. Raramente há silêncio. Perto do bar sempre há algum descornado chorando amores perdidos, incompreensões do mundo, sede infinita. O encantamento – encantado momento – está reservado para ocasiões especiais. Ilusões compostas pela força dos metais: clarinete, trompete, trombone, tuba, trompa, saxofone (alto, soprano, tenor). Miragens produzidas pela suavidade das cordas: baixo, contrabaixo, piano. Alegria em ritmo da percussão: bateria, xilofone.

Jazz pode ser apreciado em casa. Experiência egoísta. As janelas fechadas (para que o som não fuja para a rua). O volume na medida, nem muito baixo, nem muito alto – a boa musica não incomoda os vizinhos. Uma taça de vinho ao alcance da mão (ou se for da preferência do ouvinte, uísque). A emoção infiltrando-se na pele, arrepiando, enlevando os sentidos e os sentimentos.

Duke Ellington
Duke Ellington e Harry Carney. De forma carinhosa, Geoff Dyer fragmentou essa história, separando as outras histórias, separando os outros personagens. Os pneus do carro engolindo a estrada. Milhares de quilômetros. Viagem sem conclusão. Cada cidade acrescentando um ponto no mapa que eles constroem diariamente. Procura pelo fim do mundo. Ou o começo de tudo. Contudo, Duke atravessa a imensidão estadunidense anotando as ideias que iam surgindo a todo instante, confiante em que mais tarde haveria de achar uma utilidade musical para aquilo.

Todo Aquele Jazz é um prazeroso passeio musical – mimetizando os sons, estabelecendo harmonias e arranjos inovadores. Sem pretensões historiográficas ou hagiográficas, o livro recupera ficcionalmente a vida de alguns dos anti-heróis que definiram o que, modernamente, é chamado jazz. Comprovação eficiente de que a existência se define na construção de outros acordes.

Red Allen, Ben Webster e Pee Wee Russell
No posfácio, Tradição, influencia e inovação, Geoff Dyer abandona a ficção e se concentra na teoria crítica. Contrastando o passado e o presente, traça uma linha de desânimo. Sem muita esperança no futuro do jazz, reverencia os anos 50 e 60: Comparado com as outras formas de música existentes, o jazz é demasiado sofisticado para tornar-se porta-voz da vivencia do gueto. O hip-hop faz isso melhor. Além disso, mordaz, faz um comentário que coloca em xeque os hábitos culturais contemporâneos: [atualmente] os músicos não precisam competir com um excesso de conversa nas mesas para se fazerem ouvir, mas é frequente que boa parte da plateia veja o jazz como fundo envolvente para um jantar de luxo.   

Charles Mingus e Eric Dolphy

TRECHO ESCOLHIDO

Pouco a pouco ele começou a assumir o peso e as dimensões de seu instrumento. Ficou tão corpulento que o contrabaixo era um objeto que ele simplesmente pendurava no ombro como uma bolsa de material esportivo, quase sem notar o peso. Quanto maior ele ficava, menor se tornava o contrabaixo. Era capaz de obrigá-lo a fazer o que ele queria. Algumas pessoas tocavam contrabaixo como escultores, cinzelando notas num enorme bloco de pedra. Mingus o tocava como se estivesse em luta com ele, prendendo seu braço, agarrando-o pelo pescoço, beliscando as cordas como se estripasse um inimigo. Seus dedos tinham a força de um alicate. Havia quem alegasse tê-lo visto segurar um tijolo entre o polegar e o indicador e deixar duas leves depressões onde havia apertado. Logo em seguida era capaz de pinçar as cordas com a doçura de uma abelha pousando nas pétalas róseas de uma flor africana que medrasse num lugar onde ninguém nunca tivesse pisado. Se usava o arco, o som do contrabaixo lembrava o murmúrio de uma congregação de mil fiéis numa igreja. 

4 comentários:

  1. Raul,

    Tenho propagado o livro que me indicou generosamente e, é claro, não o li ainda. Mas farei a leitura, sobretudo após esse aperitivo.

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  2. Prezado Raul, se não me engano, o músico que aparece na primeira foto logo abaixo da capa do livro é o Mingus, não o Monk... Parabéns pelo texto. Um abraço fraterno. Victor Farinha

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  3. Que lindo! Indicação maravilhosa, já está na minha lista!



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