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segunda-feira, 24 de março de 2014

PEDALANDO COM MOLIÈRE



O núcleo da tragicomédia O Misantropo (Le Misanthrope), escrita em 1666 pelo mais importante dramaturgo francês, Molière (nascido Jean-Baptiste Poquelin, 1622-1673), aborda o horror produzido por pequenas vilanias, pela mesquinhez e pela vaidade excessiva.  
 
O filme Pedalando com Molière (Alceste à Bicyclette. Dir. Philippe Le Guay, 2013), penetra no interior dessas trevas. Mais do que um exercício de metalinguagem (uma história teatral contada pela ótica do cinema), mostra a tumultuada luta de egos entre dois atores, Serge Tanneur (Fabrice Luchini) e Gauthier Valonce (Lambert Wilson).

Serge se aposentou do teatro e do cinema, pois não acredita mais no ofício artístico: não há amizade, nem fidelidade, nem lealdade. Depois de uma crise de depressão, mudou-se para Île de Ré (ilha costeira francesa, situada no Oceano Atlântico, frente a La Rochelle, no Departamento de Charente-Maritime). Escolheu viver sozinho, sem amigos, em uma casa que está em péssimas condições. Quer manter o mínimo contato com o resto do mundo.

Gauthier, estrela do seriado televisivo Docteur Morange, está em crise artística. Não satisfeito em ser popular, quer agregar qualidade intelectual à sua vida profissional. Ambiciona montar O Misantropo.

Gauthier vai visitar Serge e faz o convite. Recebe um sonoro não como resposta. Ou melhor, aceita uma proposta insólita: ensaiar a peça durante cinco dias. Depois, se tudo correr bem, talvez Serge aceite participar do projeto.  
 
O narcisismo dos atores – que desconhecem tudo o que não se refere ao próprio umbigo – se pronuncia no momento da escolha dos personagens. Gauthier quer interpretar Alceste. Serge recusa Philinte. Depois de alguma discussão, o consenso surge quando concordam alterar os papeis – embora seja visível que Serge, ao contrário de Gauthier, conhece o texto com grande profundidade.

Gauthier, vaidoso, gosta de interagir com outros seres humanos. Hospedado no Hotel Le Clocher, conhece a sobrinha da concierge: uma atriz iniciante no cinema pornô. Esse momento serve de contraponto entre a amoralidade da modernidade e as regras morais do passado – espelhadas por O Misantropo.

Em determinado momento, o ensaio precisa ser interrompido. Serge, que tem mais de 50 anos, quer fazer uma vasectomia. Diz que não quer se arriscar a ter outros descendentes. Ou seja, considera o único filho um ingrato, pois não fala com ele a mais de dez anos. Como decide ir de ônibus, acaba encontrando Francesca (Maya Sansa), que lhe oferece uma carona. Aceita o convite, as desculpas (ela tinha sido grosseira com os dois atores) e estabelece um fiapo de relacionamento com a bela italiana. No hospital, como uma criança que olha a vitrine de uma loja de doces, desiste da operação.

Nos intervalos do ensaio, Francesca torna-se uma companhia frequente. Embora ela esteja se mudando para a Itália, quer repartir seus últimos momentos com os dois atores. Serge, de uma maneira ou de outra, começa a alimentar algum tipo de esperança – que é desfeito no momento que Gauthier lhe confessa ter ultrapassado uma das barreiras fundamentais da confiança entre dois homens que pretendem dividir o palco.

 O título do filme está relacionado com dois momentos emblemáticos. O primeiro, quando os dois atores repassam o texto em um passeio de bicicleta. O segundo é mais decisivo. Gauthier está em uma festa para promover a peça. Serge, vestido de Alceste, vai até lá de bicicleta. Informa que não aceita alternar os papeis, quer ser – sempre! – Alceste. Isso gera uma grande confusão e os dois atores trocam murros. Depois de separados, Serge – ou melhor, Alceste –, sem perceber que está confundindo a situação teatral com a situação “real” (que é também ficcional), discursa: Os tempos em que vivemos são tão perversos que devo me afastar da companhia dos homens. A dor é grande demais para suportar. Retiremo-nos desta selva, deste lugar cruel, já que vocês, homens, vivem como lobos. Traidores, vocês não me verão entre vocês um só dia.

As cenas finais espelham a ironia com que a vida celebra a arrogância humana.  Serge, um Alceste extemporâneo, mais uma vez sozinho, vai até a praia e recita um trecho de O Misantropo. Gauthier, de volta a Paris, consegue montar o espetáculo. Na noite de estreia, sala lotada. Em uma das cenas mais intensas da peça, esquece o texto!

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