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terça-feira, 17 de outubro de 2017

A ARTE EM QUARENTA FRASES



René Magritte

 – A arte é o remédio e o melhor deles. (Machado de Assis)

– A arte existe para que a verdade não nos destrua. (Friedrich Nietzche)

A arte é o espelho e a crônica da sua época. (William Shakespeare)

– A arte diz o indizível; exprime o inexprimível, traduz o intraduzível. (Leonardo da Vinci)

Só o amor e a arte tornam a existência tolerável. (W. Somerset Maughan)

– A arte só oferece alternativas para quem não está prisioneiro dos meios de comunicação de massa. (Umberto Eco)

– A tarefa atual da arte é introduzir o caos na ordem. (Theodor Adorno)

– Não existe obra de arte sem a colaboração do demônio. (Andre Gide)

Marcel Duchamps
 – Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno (Antonin Artaud)

– Não consigo imaginar como alguém que não escreve, pinta ou compõe pode passar pela vida (Graham Greene)

Não existe meio mais seguro para fugir do mundo do que a arte, e não há forma mais segura de se unir a ele do que a arte. (Johann Wolfgang von Goethe)

Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma. (George Bernard Shaw) 

– A arte começa onde a imitação acaba. (Oscar Wilde)

A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo. (Vladimir Maiakóvski)

– Toda arte é autobiográfica: a pérola é a autobiografia da ostra. (Federico Felini)

Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa. (Ariano Suassuna)

– O fim da arte inferior é agradar, o fim da arte média é elevar, o fim da arte superior é libertar. (Fernando Pessoa)

Salvador Dali
 – Em arte, procurar não significa nada. O que importa é encontrar. (Pablo Picasso) 

A arte é um resumo da natureza feito pela imaginação. (Eça de Queiroz)

É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente. (Simone de Beauvoir)

– Se mais de 10% da população gostar de um quadro, ele deveria ser queimado. Deve ser muito ruim. (George Bernard Shaw)

– O segredo da grande arte é ser tão pessoal e estreita que, pela força do seu exclusivismo, fala com o mundo inteiro. (Paulo Francis)

– A massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio. (Ariano Suassuna)

É preciso ser um homem do seu tempo e um artista póstumo. (Jean Cocteau)

– A vanguarda de ontem é o chique de hoje e o clichê de amanhã. (Richard Hofstadter)  

– Qualquer idiota é capaz de pintar um quadro. Mas só um gênio é capaz de vendê-lo. (Samuel Butler)

Pablo Picasso
 – As obras de arte dividem-se em duas categorias: as de que gosto e as de que não gosto. Não conheço outro critério. (Anton Tchekhov)

– A arte de interrogar não é tão fácil como se pensa. É mais uma arte de mestres do que de discípulos; é preciso ter aprendido muitas coisas para saber perguntar o que não se sabe. (Jean-Jacques Rousseu) 

O amor e a arte não abraçam o que é belo, mas o que justamente com esse abraço se torna belo. (Karl Kraus) 

Todo o segredo da arte é talvez saber ordenar as emoções desordenadas – mas ordená-las de tal modo que se faça sentir ainda melhor a desordem. (Charles Ramuz)

As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas. (Rainer Maria Rilke) 

A arte é a contemplação; é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que a natureza também tem alma. (Auguste Rodin)

De todas as coisas humanas (...) a única que tem o seu fim em si mesma é a arte. (Machado de Assis)

Francisco de Goya
 – Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver. (Bertolt Brecht)

A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são. (Fernando Pessoa)

Toda a arte e toda a filosofia podem ser consideradas como remédios da vida, ajudantes do seu crescimento ou bálsamo dos combates: postulam sempre sofrimento e sofredores. (Friedrich Nietzsche)

– A arte abstrata é um produto dos incompetentes, vendida pelos inescrupulosos e comprada pelos imbecis. (Al Capp)

A vida é a arte de tirar conclusões suficientes a partir de premissas insuficientes. (Samuel Butler)

– A lei seca da arte é esta: "Ne quid nimis”, nada além do necessário. Tudo o que supérfluo, tudo aquilo que podemos suprimir sem alterar a essência é contrário à existência da beleza. (José Ortega y Gasset)

Toda a arte é completamente inútil. (Oscar Wilde)

Vincent van Gogh


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

BLADE RUNNER 2049



Morrer pelo que é certo é a coisa mais humana que podemos fazer, diz a líder dos replicantes rebeldes para o também replicante K (Ryan Gosling), em cena emblemática de Blade Runner 2049 (Dir. Denis Villeneuve, 2017), uma espécie de sequência do clássico Blade Runner (Dir. Ridley Scott, 1982), que, por sua vez, é vagamente inspirado no romance Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, de Philip Kindred Dick (1928-1982).

O paradoxo se manifesta instantaneamente. Replicantes são androides, ou melhor, são seres bio-humanos, que evoluíram dos robôs da série Nexus.  Eles imitam os humanos, e foram criados para, grosso modo, servir de mão de obra descartável. Cabe-lhes obedecer, sem colocar em dúvida as tarefas que recebem – nada muito distante da situação vivenciada pelos escravos entre os séculos XV e XVII.  

A existência de K obedece a esse postulado. Encarregado pela polícia de Los Angeles de caçar e exterminar alguns tipos de replicantes, frutos de uma tiragem mais recente e que estão causando “problemas”, ele procura cumprir objetivamente todas as missões que lhe são designadas. No entanto, se há bastante movimento na vida profissional de K, no aspecto particular impera o vazio – exceto nos momentos em que ele interage com a imagem de Joi (Ana de Armas), uma espécie de namorada virtual (e que só existe na forma hologramática).

Ocorre um curto-circuito emocional depois que K mata um replicante, Sapper Morton (Dave Bautista) – e em vários níveis. Dentro de uma caixa, que estava enterrada perto de uma árvore, são encontradas várias informações sobre as mutações que estão ocorrendo com os replicantes – e que, de uma forma ou de outra, colocam em risco o poder humano. Como ocorre nas sociedades totalitárias, não há espaço para a diversidade. Torna-se necessário eliminar quaisquer focos de resistência ao padrão unificador.

Essa mudança de parâmetros coloca sob os holofotes uma questão essencial. Os replicantes não possuem subjetividade. Eles não compartilham daqueles elementos singulares que distinguem os indivíduos (valores, crenças, opiniões, lembranças). Então, como explicar a rebelião que está em curso? Como entender que alguns replicantes tenham adquirido consciência de que a vida está revestida de um valor inestimável? Máquinas são máquinas – exceto nos casos em que a inteligência artificial seja autônoma para produzir um novo nível de inteligência.

(Nota 1: quem discordar dessa tipo de pensamento deve ler Homo  Deus: uma breve história do amanhã, de Yuval Noah Harari, onde as previsões sobre a composição da sociedade futura são aterradoras.)


Simultaneamente, K recupera uma lembrança da infância. Um pequeno cavalo esculpido em madeira se transforma em uma espécie de “Madeleine” proustiana ou “Rosebud” (de Cidadão Kane. Dir. Orson Welles, 1941). Esse caso exemplar de autoengano se revela decisivo para o andamento narrativo. Aquele que deveria se comportar como inumano vê o passado relampejar diante de seus olhos como elemento primordial da existência. De maneira completamente fora do controle de seus fabricantes, o androide adquire consciência de está se tornando humano e que a sua vida – a partir desse instante – está em perigo.

Acrescenta-se o fato de que K não sabe (e não tem condições de saber) de que essa memória não é sua. Ela faz parte de um implante. Então, entre o acreditar que está destinado a executar uma tarefa singular para o destino de todos e, logo depois, se desiludir com a descoberta de que tudo o que acredita (e o motiva) é uma farsa, a vida de K se torna intensa, imensa, maravilhosamente preenchida por uma experiência real, verdadeira, humana.      

Em um mundo distópico, caracterizado por grandes espaços desertos, ruínas urbanas e grandes avanços tecnológicos, Blade Runner 2049 (assim como a versão de 1982) trava um diálogo constante com o faroeste – gênero cinematográfico especular/espetacular da colonização estadunidense e constantemente reproduzido por Hollywood. As cenas de ação do filme (tiroteios, lutas físicas) estão atreladas ao mito do herói e, consequentemente, ao maniqueísmo (a divisão entre o bem e o mal sempre foi a maneira mais fácil de relativizar qualquer ação humana). A vantagem de Blade Runner 2049 está exatamente em se afastar desse esquema dualista, através do desafio intelectual. As dúvidas que o filme suscita são mais interessantes do que as respostas que apresenta. 
 

 (Nota 2: não é necessário ver/rever o Blade Runner de 1982 para entender o de 2017. Também não é necessário ler o texto de Philip Kindred Dick.  São histórias diferentes, independentes, e que estão ligadas por fios muito tênues.)  



(Nota 3: uma das cenas mais divertidas do filme é completamente acessória. A pós-modernidade cinematográfica está representada na jukebox holográfica – a projeção luminosa de Frank Sinatra [ou de Elvis Presley e Marilyn Monroe] mostra que o passado constituí a sombra de que o homem e a máquina não conseguem se separar.)


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

KAZUO ISHIGURO



Parte do mundo literário ficou surpreso com o anúncio que a Real Academia Sueca concedeu o Prêmio Nobel de Literatura 2017 para o mais britânico dos escritores japoneses, Kazuo Ishiguro. Entre os especialistas (em literatura, em bolsas de apostas), ele não era considerado como um candidato com chances reais de receber o título e, consequentemente, o dinheiro (cerca de R$ 3,5 milhões – que equivalem aos nove milhões de coroas suecas). 

 A família de Kazuo Ishiguro mudou-se para Inglaterra quando ele tinha cinco anos de idade. Por diversos motivos foram adiando a volta ao Japão e, por fim, adotaram a cidadania britânica. Ishiguro foi aluno das universidades de Kent e East Anglia (onde estudou “escrita criativa”, no curso ministrado por Malcolm Bradbury). A carreira literária iniciou com Uma Pálida Visão dos Montes, em 1982. Quatro anos depois, publicou Um Artista do Mundo Flutuante (vencedor do Whitbread Book of the Year, de 1986). Alcançou o sucesso com Vestígios do Dia, ganhador do Booker Prize, de 1989. A história de um mordomo que abdica da vida pessoal para poder servir melhor ao patrão e que, em dado momento, precisa conviver com mudanças sociais e econômicas que ele não entende ganhou adaptação cinematográfica (The Remains of the Day. Dir. James Ivory, 1993). O filme concorreu a oito Oscar, mas não recebeu nenhum. 

 Nos anos seguintes, Ishiguro publicou O Inconsolável (1995), Quando Éramos Órfãos (2000), Não Me Abandone Jamais (2005), Noturnos (2009) e O Gigante Enterrado (2015). Todos foram recebidos com algumas reservas. A guinada na direção da ficção científica em Não Me Abandone Jamais, que tem toques de “déjà vu”, pois trata de um mundo distópico onde as crianças e adolescentes são utilizados para abastecer o mercado de transplantes de órgãos, causou perplexidade no mundo literário inglês. A versão cinematográfica também não obteve grande sucesso (Never Let Me Go. Dir. Mark Romanek, 2010). 

O último livro publicado até o momento, O Gigante Enterrado, uma fantasia medieval, onde dragões se misturam com névoas do esquecimento e cavaleiros que serviram ao rei Arthur, seguiu o mesmo caminho, com resenhas bastante agressivas em virtude do tom ameno utilizado para narrar alguns momentos da identidade britânica. Para alguns críticos, o edulcoramento infantojuvenil do livro desconsidera as lutas entre anglos e saxões e a consequente violência que as caracterizou.

Evidentemente, todas essas observações se baseiam em critérios de análise literária. Para o público, muitas são irrelevantes – o leitor se satisfaz com uma trama envolvente. E poucos se interessam em discutir o estilo seco, exato, narrativamente distante que caracteriza a prosa de Kazuo Ishiguro. Simultaneamente, ninguém consegue negar a sua habilidade na carpintaria literária – e que está expressa na forma com que construiu contos e romances. Talvez seja essa a motivação que ele encontrou para abandonar o realismo tradicional e enveredar por outros gêneros narrativos (ficção científica, fantasia histórica). Enfim, Ishiguro mostra que não está preocupado em ser rotulado como um escritor de estilo definitivo. Ao contrário, quer explorar alternativas e, de certa forma, se divertir.


NOTA ADICIONAL


Kazuo Ishiguro é um dos expoentes do movimento inglês denominado World Fiction. Entre os anos 70 e 80, como consequência do pós-colonialismo, a Inglaterra abrigou muitos escritores oriundos de outras regiões do planeta. Os mais influentes escritores desse grupo são Hanif Kureish (pai paquistanês), Michel Ondaatje (nascido no Sri Lanka), Zadie Smith (mãe jamaicana), Monica Ali (nascida em Bangladesh), Salman Rushdie (de origem indiana), Doris Lessing (nascida na Pérsia), Vidiadhar Surajprasad Naipaul (nascido em Trinidad) e John Maxwell Coetzee (nascido em África do Sul). Embora muitos discordem, há quem considere que, nesse balaio de gatos, devem estar incluídos “os suspeitos de sempre”: irlandeses, galeses, escoceses, canadenses, australianos, etc.
  

domingo, 1 de outubro de 2017

O LIVRO EM CINQUENTA FRASES



 – Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria. (Jorge Luis Borges)

Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos. (Oscar Wilde)

– Eu escrevo livros, por isso sei todo o mal que eles fazem. (Liev Nikolaievich Tolstoi)

– Pela grossura da camada de pó que cobre a lombada dos livros de uma biblioteca pública pode medir-se a cultura de um povo. (John Steinbeck)

– Os livros têm os mesmos inimigos que o homem: o fogo, a umidade, os bichos, o tempo e o próprio conteúdo. (Paul Valery)

– Livro, quando te fecho, abro a vida. (Pablo Neruda)

– A cultura valeu-se principalmente dos livros que fizeram os editores ter prejuízo. (Thomas Fuller)

– Uma casa sem livros é um corpo sem alma. (Marcus Tullius Cícero)

– Há pessoas que possuem uma biblioteca assim como os eunucos possuem um harém. (Victor Hugo)

 – Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante. (Carlos Drummond de Andrade)

– A leitura é para o intelecto o que o exercício é para o corpo. (Joseph Addison)

– Um livro é um brinquedo feito com letras. Ler é brincar. (Rubem Alves)

– Os livros são o alimento da juventude. (Marcus Tullius Cícero)

– O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive. (Padre António Vieira)

– Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever – inclusive a sua própria história. (Bill Gates)

– Bendito aquele que semeia livros e faz o povo pensar. (Castro Alves)

– O mundo está cheio de livros fantásticos que ninguém lê. (Umberto Eco)

– Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer (Ítalo Calvino)

– Eu acho a televisão muito educativa. Toda vez que alguém liga o aparelho, eu vou para a outra sala e leio um livro. (Groucho Marx)

 – O autor só escreve metade do livro. Da outra metade, deve ocupar-se o leitor. (Joseph Conrad)

– Meio de transporte favorito: Livro. (Anônimo)

– Aqueles que começarem a queimar livros, logo queimarão pessoas. (Heinrich Heine)

– A humanidade progride. Hoje somente queimam meus livros; séculos atrás teriam queimado a mim. (Sigmund Freud)

– Os poetas devem ser pessoas médias: nem deuses, nem vendedores de livros. (Horácio)

Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós. (Franz Kafka)

– A companhia dos livros dispensa com grande vantagem a dos homens. (Marquês de Maricá)

– São os livros que nos causam os maiores prazeres e os homens quem nos causa as maiores dores. (Joseph Joubert)

– Alguns livros são do tipo que, quando você os larga, não consegue pegar mais. (Millôr Fernandes)

– Leio por instruir-me; às vezes por consolar-me. Creio nos livros e adoro-os. (Machado de Assis)

 – A vida ideal consiste em ter bons amigos, bons livros e uma consciência sonolenta. (Mark Twain)

– Meu desejo maior é ter em casa uma mulher razoável, um gato a passear entre meus livros e, a todo tempo, amigos. Sem tais prazeres eu não viveria. (Guillaume Apollinaire)

– Se ao lado da biblioteca houver um jardim, nada faltará. (Marcus Tullius Cícero)

– A leitura de todos os bons livros é uma conversação com as mais honestas pessoas dos séculos passados. (René Descartes)

– Um livro é o único lugar no mundo onde dois estranhos podem se encontrar em absoluta intimidade. (Paul Auster)

– Em ciência, leia sempre os livros mais novos. Em literatura, os mais velhos. (Millôr Fernandes)

– Faço com os meus amigos o que faço com os meus livros. Guardo-os onde os posso encontrar, mas raramente os utilizo. (Ralph Waldo Emerson)

– O homem que não lê bons livros não tem nenhuma vantagem sobre o homem que não sabe ler. (Mark Twain)

 – Há livros de que apenas é preciso provar, outros que têm de se devorar, outros, enfim, mas são poucos, que se tornam indispensáveis, por assim dizer, mastigar e digerir. (Francis Bacon)

– Os livros podem ser divididos em dois grupos: aqueles do momento e aqueles de sempre. (John Ruskin)

– Caminhas em direção da solidão. Eu não; eu tenho os livros. (Marguerite Duras)

– Livros e solidão: eis o meu elemento. (Benjamin Franklin)

– Basta ler meia página do livro de certos escritores para perceber que eles estão despontando para o anonimato. (Stanislaw Ponte Preta)

– O livro é um mestre que fala mas que não responde. (Platão)

– Os livros são abelhas que levam o pólen de uma inteligência a outra. (James Lowell)

 Nunca empreste livros, pois nunca vão devolvê-los. Todos os livros que tenho em minha biblioteca são livros que outras pessoas me emprestaram. (Anatole France)

– A palavra é apenas um ruído, e os livros são apenas papel. (Paul Claudel)

– Um dos principais deveres do homem é cultivar a amizade dos livros. (Thomas Carlyle)

– Somente deveríamos ler os livros que nos picam e nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para quê lê-lo? (Franz Kafka)

– Antigamente os livros eram escritos por homens de letras e lidos pelo público. Hoje são escritos pelo público e lidos por ninguém. (Oscar Wilde)

– Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante. (Clarice Lispector)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

TÔ FRITO!


A história da gastronomia está repleta de histórias de incontáveis desastres. Para espanto geral, nem todos terminaram em tragédia. Só alguns. E que são rapidamente esquecidos. Em compensação, por caminhos tortuosos, algumas dessas catástrofes resultaram em pratos saborosos. Ou experiências didáticas.

As jornalistas Luciana Fróes e Renata Monti organizaram um livro com algumas dessas histórias que tiveram final feliz. Tô Frito! (uma coletânea dos mais saborosos desastres na cozinha) reúne depoimentos de 20 chefs e “restaurateurs” brasileiros. Esses relatos, transitando em uma faixa muito extensa de narrativas (do bizarro ao patético, do drama à comédia), conseguem entregar ao leitor um “prato” suculento – desses que possuem sabor de quero mais.

Comprovando que em qualquer cozinha – seja em restaurante, seja em casa – não faltam momentos em que desanda a maionese, o glacê, o suflê ou qualquer coisa que esteja no fogão, torna-se impossível não rir com Roberta Ciasca quando ela relata o sumiço de alguns frangos e batatas destinados a um almoço. A descrição da noite de inauguração do restaurante “Entretapas”, de Jan Santos, é hilária. O mesmo vale para o primeiro restaurante de Claude Troisgros. Para tentar ampliar a freguesia, Rogério Fasano promoveu um chá da tarde – pesadelo é um adjetivo suave para explicar o acontecimento. Nessa linha, quando tudo parece que vai dar errado, mas que – surpresa! – o resultado é outro, está a torta Terremoto, de Flávia Quaresma.

A vida de um Chef de Cuisine não é tão glamorosa quanto parece. Por exemplo, Alex Atala conta que quase teve o seu braço amputado em Singapura. Convidado para preparar um jantar no Ritz Carlton, esqueceu de proteger um dedo machucado. Ao limpar um tamboril, acabou sendo infectado por uma bactéria invasiva. Resultado: além do susto, quatro cirurgias e várias cicatrizes.

Renata Monti e Luciana Fróes
E aquela situação em que a equipe (por algum motivo) fica desfalcada? Improvisar é preciso. Precioso. Inclusive porque os momentos de terror se transformam – mais tarde – em lições de aprendizado e de profissionalismo. É o que ensinam Jan Santos, Zazá Piereck e Roberta Ciasca. O mesmo se pode dizer de Guga Rocha que, em ritmo tirar coelho de cartola, conseguiu, em determinado momento, transformar as condições mais adversas em sucesso.

As aventuras gastronômicas (ou melhor, de contrabando) de Rogério Fasano deveriam ser filmadas como parte de alguma comédia-pastelão. A cena em que ele quase foi preso por causa de algumas alcachofras ou aquela quando passou pela alfandega com uma peça de pastrami escondida dentro de uma mala são clássicas e deveriam ser objeto de estudo – por diversos motivos – nas faculdades de gastronomia do Brasil.

Provavelmente, a maior contribuição gastronômica que se pode observar em alguns dos relatos de Tô Frito! é a inclusão de diversos ingredientes brasileiros. Tapioca, farinha de banana, carne de sol, pão de queijo, abóbora – não há limites para a criatividade. 

No terreno das relações políticas há a descrição de diversos momentos em que o preconceito se mostra presente. Exemplar nesse sentido são as histórias “das cachaças” (relatada por Edméa Falcão) e a da prostituta (contado por Alex Atala). Como essas narrativas estão envoltas em leveza, como se fossem “causos” corriqueiros, há um atenuar dos efeitos nocivos que representam.

Claude Troisgros conta que quem trabalha com alimentos – em algumas situações – precisa se adaptar aos mais diferentes ingredientes. E nem todos são comestíveis (quer dizer,...). Com bom humor ele conta duas histórias envolvendo um gato e diversas baratas. São imprevistos que precisam ser previstos em um mundo em que as surpresas são constantes.

Resumo do livro: Tô Frito, longe de ser um livro destinado apenas ao pessoal que trabalha na cozinha, é divertidíssimo. E de fácil leitura.


TRECHO ESCOLHIDO


Certo dia, lá no Garcia & Rodrigues, um funcionário aparece para me avisar:

– A família do Ed Motta está lá no café, querem falar pessoalmente com o senhor.

Subo as escadas na correria, preocupado com meu amigo, e me sento à mesa com a mãe, uma tia falante, além do médico da família e Edna, sua mulher, parecendo não acreditar muito naquela intervenção.

– Gostaríamos que o senhor proibisse a vinda do Ed aqui – disse a esposa.

Apesar de o pedido me parecer insólito, determinei em reunião com a equipe a proibição da entrada de Ed. Vida de restaurateur é repleta de saia-justa.

Passaram-se umas duas semanas de embargo. E um dia novamente aparece um funcionário, para me avisar da presença de um menino de rua na loja com uma lista de compras e dinheiro na mão, pedindo itens como presunto San Daniele, 250 gramas de foie gras, queijo Pont-l’Évêque e por aí vai – uma lista pra lá de caprichada. A presença do menino não era nenhum problema, mas aquela encomenda me fez lembrar, curiosamente, de um outro cliente...

Assumi meu lado investigador, e o rapaz logo revelou o mandante por trás do apetitoso rol. Lá estava o nosso Ed Motta, escondidinho do outro lado da Ataufo de Paiva, atrás de uma fileira de táxis.

Liguei para a Edna, com o Ed ao meu lado, e o jeito foi suspender a proibição, na época ainda não se dizia “Fazer o quê?”, mas foi exatamente o que eu pensei.