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segunda-feira, 12 de junho de 2017

ROMANCISTA COMO VOCAÇÃO

Muitos escritores contemporâneos procuram transmitir aos seus leitores um conjunto de experiências pessoais. São narrativas que reúnem trechos autobiográficos e diversos conselhos sobre a arte literária. Dependendo da habilidade do autor e do marketing empregado pela editora, esses livros costumam se destacar na lista dos mais vendidos durante algum tempo. Depois, como compete ao fluxo das mercadorias, são esquecidos. Quer dizer, são substituídos. Faz parte do show. Ou das regras comerciais.

Romancista como Vocação, de Haruki Murakami, segue esse propósito – e, possivelmente, terá uma vida útil idêntica a de outros livros similares. Inclusive porque não acrescenta elementos significativos para a teoria da literatura. Também não contém ensinamentos capazes de despertar a vocação em novos escritores.  Como Murakami – quando decidiu publicar o livro – não estabeleceu como meta esses dois propósitos, seu objetivo se mostra mais singular, menos ambicioso. Ao comentar alguns dos episódios que se destacaram na sua trajetória pelo mundo literário, Murakami adotou o velho estilo “chove, mas não molha”.  

Isso ele faz e de forma coloquial, como se estivesse conversando com o leitor. Para alcançar esse efeito, Murakami não economiza no uso de metáforas, referências musicais (jazz, rock, clássicos) e esportivas (beisebol). Os interstícios são preenchidos por várias historietas complementares. Nesse último caso, em alguns momentos há reticências. Ele não se detém nas razões que o fizeram se casar antes dos 20 anos e, consequentemente, quase abandonar a universidade – levou sete anos para concluir o curso de letras.  Em compensação, não poupa palavras para destacar que foi dono de um bar de jazz em Tóquio. Atrás do balcão, nos momentos de descanso de um trabalho árduo, ele pode ler muito e escutar milhares de discos. A forma detalhada com que descreve esse período da vida (e que antecede a publicação de seu primeiro livro) revela que esteve mais próximo da felicidade do que em todo o período que passou na universidade.

O livro está dividido em onze capítulos (provavelmente escritos em períodos diferentes), onde são abordados diversos assuntos de interesse de um escritor que – embora diga ser modesto e deteste conflitos – ambiciona ser amado por todos os leitores e críticos literários do mundo. Felizmente, esse delírio se mostra inexequível. Murakami se derrama em reclamações contra os críticos literários. Apesar do sucesso de seus livros no mundo (o destaque é Norwegian Wood), ele gostaria de receber elogios (muitos elogios). Mas,... O seu estilo narrativo está na contramão de uma literatura que não costuma se curvar a certos elementos ocidentais. Essa postura inconformada está explícita no capítulo XI (Ir para o exterior. Novas fronteiras.), onde relata, de forma irreconhecível para um escritor contido e humilde (na aparência), as suas relações com o mercado literário estadunidense. Provavelmente é o capítulo mais tolo do livro.   

Murakami começou a escrever romances aos trinta anos, em 1978. Ele estava assistindo uma partida de baseball, quando teve um insight – e que deflagrou uma carreira literária composta por diversos romances de indiscutível qualidade: O som agradável do taco atingindo a bola ecoou em todo o estádio. Ouviram-se alguns aplausos. Nesse momento pensei subitamente, sem nenhum contexto e sem nenhum fundamento: É, talvez eu também possa escrever romances. Surpreendentemente, Ouça a Canção do Vento – que foi escrito durante as madrugadas, na mesa da cozinha – ganhou um prêmio oferecido pela revista Gunzô. Foi esse primeiro sucesso que o impulsionou para uma carreira de romancista. 

O método de trabalho de Murakami é rígido. Próximo do mecânico. E abrange, além da disciplina espartana, horas de exercícios físicos – elemento explorado no livro Do que Eu Falo Quando Eu Falo de Corrida. Sem querer gerar controvérsias, sua visão do mundo literário está muito distante do estereótipo romântico do escritor que atravessa as madrugadas em bares ou em boates de quinta categoria, se encharcando em álcool, sexo e drogas (não necessariamente nessa ordem).

Em um dos momentos mais interessantes do livro, Murakami faz duas declarações destinadas a causar turbulência no mundo literário. Depois de afirmar que escrever romances não é um trabalho apropriado para pessoas muito inteligentes e de mente afiada, ele ampliou o debate emitindo outra declaração complicada: Em geral os críticos literários são mais inteligentes e perspicazes do que os romancistas. Independente da correção dos conceitos, poucas pessoas que trabalham com literatura concordam com esse tipo de posicionamento ambíguo. A vaidade dos escritores (que muitas vezes odeiam os críticos) e a falta de humildade dos críticos (que muitas vezes detestam os escritores) costumam entrar em colisão, independente da qualidade do material literário produzido pelas duas partes. Além disso, Murakami quase que implora, em alguns trechos, por um minuto de atenção dos críticos literários (principalmente os japoneses).

O ponto alto do livro está no capítulo VIII (Sobre escolas), onde desmistifica o idealismo que envolve a vida escolar. Murakami declara com todas as letras que a sua experiência durante esse período foi insípida: Eu não levava os estudos a sério por um motivo bem simples: primeiro, achava muito chato. Estudar não despertava o meu interesse, ou melhor, havia muitas outras coisas mais divertidas do que isso, como ler, escutar música, assistir filmes, nadar no mar, jogar beisebol, brincar com os gatos... depois de crescer mais um pouco, varava a noite jogando mahjong com os amigos, saí com garotas... essas coisas. Comparado com isso, estuda era bem chato.

Resumindo: Romancista como Vocação é um livro mediano, sem muitos atrativos – exceto, claro, se você for um fã ardoroso de Haruki Murakami. 


TRECHO ESCOLHIDO


Vou falar do meu caso. Pensando agora, o maior consolo que tive na época em que frequentava a escola foram alguns bons amigos e os muitos livros que li.


E por falar em leitura, li tudo o que encontrava à minha frente, livros dos mais variados tipos. Todos os dias, eu me ocupava em saborear e digerir cada um deles (muitos eu não consegui digerir) e praticamente não sobrava tempo para pensar sobre outras coisas. Às vezes penso que foi melhor assim. Se eu olhasse à minha volta, se refletisse sobre as coisas, as contradições e as mentiras, e investigasse seriamente aquilo com que não me conformava, talvez eu tivesse sofrido mais, me sentido pressionado a um beco sem saída.


Ao mesmo tempo, o fato de ter lido avidamente vários tipos de livro me serviu para relativizar a minha perspectiva, e isso teve um grande significado para mim durante a adolescência.Foi como se u tivesse vivido as diversas emoções narradas nos livros, dentro da imaginação, eu me movia livremente no tempo e no espaço, via várias paisagens curiosas. Várias palavras passaram pelo meu corpo e, como consequência, a minha perspectiva se tornou múltipla. Ou seja, eu não só observava o mundo do ponto onde me encontrava, como também conseguia observar minha própria imagem que observava o mundo de um lugar um pouco afastado e de forma relativamente objetiva.


Se observarmos as coisas apenas de nosso ponto de vista, o mundo parecerá cada vez mais irreparável. O nosso corpo enrijecerá e perderemos a agilidade e a mobilidade. Mas quando conseguirmos observar o lugar onde estamos sob diferentes ângulos, ou seja, quando conseguimos confiar a nossa existência a um sistema diferente, o mundo se torna tridimensional e flexível. Acho que isso é importante para todo mundo. O fato de eu ter aprendido isso através da leitura foi bastante significativo para mim.


Se não existissem livros, se eu não tivesse lido vários deles, provavelmente minha vida seria mais triste e dura do que ela é hoje. Ou seja, para mim, a leitura foi uma grande escola. Uma escola construída sob medida para mim e administrada de forma personalizada. Nela, aprendi muitas coisas importantes por conta própria. Sem regras conservadoras, sem avaliação com notas, sem disputas intensas por uma boa classificação. Naturalmente, sem bullying. Eu estava inserido em um grande sistema, mas ao mesmo tempo tinha conseguido garantir o meu próprio sistema.


O que imagino como o espaço para a recuperação do indivíduo é parecido com isso. Mas ele não deve contar somente com a leitura. O espaço tem que ser personalizado, e lá as crianças devem poder encontrar o que combina com elas, o que está à sua altura, e desenvolver suas habilidades no próprio ritmo. Acho que se as crianças que não conseguem se familiarizar com o atual sistema educacional, que não conseguem se interessar muito pelos estudos na sala de aula, encontrarem esse espaço para a recuperação do indivíduo, elas conseguirão superar o muro do sistema. Mas, para isso, é necessário o apoio da comunidade e da família, que precisa compreender e avaliar corretamente essa atitude, ou seja, o modo de viver como indivíduo.

 

Meus pais eram professores de língua japonesa (minha mãe parou de trabalhar quando se casou) e, por isso, quase nunca reclamaram do fato de eu ler muito. Eles não estavam satisfeitos com minhas notas, mas não diziam: “Estude para a prova em vez de ficar com esses livros”. Talvez eles tenham dito isso algumas vezes, mas não ficou guardado na minha memória, então não devem ter feito isso com frequência. Acho que esse é um dos motivos pelos quais preciso agradecer aos meus pais. 

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